Lição 4 – O evangelho de Moisés

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Veja só que interessante: há muitos teólogos atuais que ainda insistem em traçar oposição entre a aliança do Sinai (“lei de Moisés”) e a nova aliança (“lei de Cristo”).

Uma visão mais abrangente de toda a Bíblia, no entanto, desafia tal oposição. Ao lermos o Salmo 103, Salmo que, inclusive, se tornou um hino para o povo hebreu, notamos que ele reconta a trajetória de Israel e seu relacionamento pactual com Deus a partir da perspectiva de Davi.

Observe, comigo, que as pessoas que realmente viveram naquela época, na época da chamada antiga aliança, elas mesmas tinham uma visão positiva da lei.

“Como eu amo a Tua lei! Medito nela o dia inteiro” (Sl 119:97). Na aliança do Sinai eles encontraram “prazer” (v. 24), orientação para a vida (v. 24), “verdadeira liberdade” (v. 45) e “esperança” (v. 49). Eles a descreveram como “o tema da minha canção” (v. 54), “testemunhos […] maravilhosos” (v. 129), o meio pelo qual “preservas a minha vida” (v. 93) e “a alegria do meu coração” (v. 111), aquilo pelo qual eles suspiravam e ansiavam (v. 131).

Além desses versos, muitos outros proclamam os benefícios da antiga aliança. O Salmo fala de perdão, resgate, justiça e cura muito antes de eles mesmos saberem que seria realmente necessário sangue inocente ser derramado para que tivessem sua causa finalmente garantida.

A leitura do Salmo 103 pelo povo de Israel já conferia a eles, pela fé, a certeza de muitas graças. Mas se faltava ainda tanto tempo para Jesus nascer, viver, morrer e ressuscitar entre nós, como eles já desfrutavam de uma graça que, segundo alguns defendem, só se recebe a partir da cruz?

Na verdade, viver a lei de Moisés para o povo de Israel já lhes conferia um relacionamento com Deus capaz de promover a nova aliança no Antigo Testamento.

Hoje em dia, o que vemos são pessoas especulando que a antiga aliança era “escravidão pela regra”. Mas, para quem originalmente viveu naquele tempo, a lei da antiga aliança representava prazer, referencial e confiança. E em Hebreus 4 o próprio apóstolo Paulo nos faz entender isso. Ali fica claro que aqueles que não entraram no descanso de Deus não o fizeram por desobediência e não porque viviam sob a antiga aliança.

Isso nos indica que Deus revalidou sua aliança porque houve da parte de cá, isto é, do ser humano, desacato. No pacto Deus-homem, quem falou foi a humanidade. Diante disso e da imensa misericórdia de Deus, Ele dá outra chance, revalidando a aliança e nos oferecendo a troca do coração de pedra por um coração vivo que pulsa e se alegra em fazer a vontade Dele.

A nova aliança não surge porque a antiga falhou. Ela vem para restabelecer a conexão que nós perdemos. Ela é estabelecida para nos reconectar ao evangelho eterno, à boa nova da salvação que nos foi ofertada não no Antigo Testamento, mas muito, muito antes disso: antes mesmo da fundação do mundo e de seus habitantes.

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Sobre o autor

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Jornalista, editora da ComTexto. Mestre em ciência e pós-graduada em Teologia

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